3.11.09

O que Lula não viu

Miriam Leitão

O presidente Lula viajou durante três dias pelas obras da transposição do Rio São Francisco. O que ele não viu? Que do total de um milhão de hectares de Áreas de Preservação Permanente (APPs) no rio, 700 mil estão degradados. A recuperação mal começou. É preciso plantar 27 milhões de mudas por ano, o Ministério da Integração prevê 1,5 milhão, 5% do necessário, mas só 200 mil estão sendo produzidas.

Conversamos com quem está trabalhando para a proteção do rio. É um desconsolo. O que Lula não viu foi a vasta tarefa ambiental que precisa ser feita para recuperá-lo e protegê-lo dos impactos da obra de transposição. As APPs — que são alto de morro, beira de rio, entorno de nascente, encostas — do São Francisco chegam a 1 milhão de hectares porque o rio é imenso e há muito tempo está mal tratado.

Dos 700 mil hectares que precisam de recuperação, metade pode ser cercada para que a vegetação nativa se recupere naturalmente, mas a outra metade exige plantio de 27 milhões de mudas por ano, de acordo com o Plano Integrado de Desenvolvimento Florestal Sustentável do São Francisco, estudo feito pela Universidade Federal de Lavras, a pedido do próprio governo.

O projeto que está sendo executado pelo Ministério da Integração Nacional prevê a produção anual de apenas 1,5 milhão de mudas, pouco mais de 5% do que seria necessário. Isso é o que está no site, porque se existe uma tarefa difícil é tirar do governo o que está sendo feito para proteger o rio. O Ministério da Integração mandou um texto no mais puro burocratês. A Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) pediu as perguntas por escrito na quarta, mandou a resposta no domingo, num claro corte e cola de documento velho. Não há uma resposta compreensível. Para o Ibama ligamos durante uma semana inteira.

Já os pesquisadores das universidades de Lavras e do Vale do São Francisco conversaram conosco. Eles acham que o número de mudas previsto no projeto do governo é insuficiente e não está sendo atingido. Estariam sendo produzidas não mais que 200 mil, menos de 1% do que precisa ser feito.

O coordenador do Centro de Referência em Recuperação de Áreas Degradadas do Alto do São Francisco, Antonio Claudio Davide, ligado à Universidade de Lavras, percorreu de helicóptero mais de 1.500 quilômetros de extensão do rio para medir a degradação e planejar o projeto de recuperação.

— Gostaria de saber onde estão esses um milhão e meio de mudas, que já seriam muito insuficientes. Aqui no centro, estamos produzindo 70 mil mudas, que dariam para plantar cerca de 35 a 40 hectares. Precisamos cobrir 350 mil hectares! O fato é que não existe no governo a consciência da importância da recuperação dessas áreas. E sem replantio, não dá para falar na recuperação do São Francisco — explicou Davide.

Os números são tão imensos quanto a dimensão do Velho Chico: de acordo com o plano feito pela Universidade de Lavras, é preciso $R$ 4,7 bilhões em 18 anos, somente para reflorestamento. São R$ 2,37 bilhões para produção e plantio de mudas; R$ 1,8 bilhão para cercar áreas onde haverá regeneração natural; e o restante em infraestrutura, estudos, contratação de pessoal, treinamento. Um gasto anual de R$ 261 milhões, de 2008 a 2025.

Na avaliação de Davide, o projeto de recuperação das APPs está andando em “velocidade de carroça”. Há baixa produção de mudas; resistência de produtores rurais, que querem usar todas as áreas para agropecuária; falta de profissionais qualificados; e pior, as liberações de recursos não têm regularidade. Tem hora que o dinheiro sai, tem hora que não sai.

— O orçamento anual do meu centro é de R$ 350 mil. Em 2008, o dinheiro veio, mas em 2009 ainda não recebi nada. O ano está perdido. Agora em novembro, receberei R$ 200 mil, mas é para financiar o trabalho dos próximos sete meses. Perdi mais da metade da minha equipe e agora terei que recontratar e treinar todo mundo — afirmou.

Enquanto o projeto de recuperação está nesse ritmo, as obras de transposição são exibidas como troféu de campanha eleitoral. De acordo com o 8º Balanço do PAC, de outubro de 2009, as obras do eixo Leste estão 16% concluídas e as do eixo Norte, 13,7%.

Para o coordenador do Programa de Conservação da Fauna e Flora da Universidade Federal do Vale do São Francisco, José Alves, não há garantias de que o projeto de recuperação será feito de forma correta, antes e após a conclusão das obras de transposição do rio:

— Estamos trabalhando de forma isolada e os custos e os desafios da recuperação são muito grandes. Não há continuidade nos repasses por parte do governo federal. É preciso fazer um inventário de toda a fauna e flora, e isso tem que ser feito agora. Coletar espécies raras que só existem no local, aprender a fazer a produção e o plantio das mudas, como armazenar as sementes. Do jeito que está, não temos nenhuma garantia de que depois da transposição, o projeto de recuperação será executado de forma correta — disse Alves, que coordena os estudos sobre a flora.

Isso é só para fazer uma parte do projeto de revitalização: a recuperação da vegetação. Não ocorre lá o que estava na carta de Pero Vaz: “Em se plantando, tudo dá.” É preciso fazer as mudas das espécies certas, esperar crescer, plantar na hora certa, torcer para que as chuvas venham, contar as perdas, proteger as que se firmarem. Tudo numa vasta extensão de um rio que atravessa cinco estados. Muito precisava ser visto e feito. Abrir dois canais com a força do Exército brasileiro é a parte mais fácil.

A deterioração das contas públicas

O Estado de S. Paulo

Diante dos resultados fiscais do setor público de setembro, que registrou um superávit de 1,17% do PIB para 12 meses, o especialista em contas públicas Raul Velloso observou que um superávit abaixo de 1,5% sinaliza problemas. Os dados de setembro foram piores do que se esperava: saiu-se de um superávit primário de R$ 5 bilhões em agosto para um déficit de R$ 5,7 bilhões.

O único responsável por esse resultado - o pior desde 1991, quando o Banco Central passou a divulgar os resultados fiscais - é o governo central (governo federal, Banco Central e INSS), que teve um déficit primário de R$ 8 bilhões. Os governos regionais tiveram superávit de R$ 1,7 bilhão e as empresas estatais, de R$ 535 milhões. O resultado nominal do governo central é mais significativo, passando de R$ 8,1 bilhões em agosto para R$ 22,3 bilhões.

O resultado do Tesouro Nacional (conta acima da linha), publicado na véspera, já indicava essa deterioração, ao constatar uma redução de 10,4% das receitas e um aumento de gastos de 8,8%.

O déficit nominal foi financiado por um aumento da dívida mobiliária interna, que cresceu em relação ao PIB, e por elevação da base monetária. A dívida externa líquida diminuiu em razão do aumento das reservas internacionais.

Essa situação é consequência da "farra fiscal" do governo federal - segundo a expressão de Rogério L. Furquim Werneck -, que tem objetivos nitidamente eleitorais. Nos próximos meses, o governo conta com a melhora da arrecadação, em consequência das festas de fim de ano. Mas, se nesse período as receitas aumentam, as despesas crescem ainda mais, com os gastos compulsórios (13º salário) e a necessidade de realizar no exercício gastos inscritos no orçamento.

Já se sabe que a manipulação do cálculo do superávit primário poderá permitir ao governo se aproximar do valor previsto na Lei de Diretrizes Orçamentárias. Mas haverá um crescimento impressionante do déficit nominal que o governo pretendia eliminar.

Os Estados e municípios, que também tiveram queda de receita, conseguiram manter o superávit primário destinado a pagar parte dos juros da dívida pública. As empresas estatais federais, que nos nove primeiros meses do ano passado apresentaram um superávit primário de R$ 1,1 bilhão, têm, em 2009, um déficit de R$ 2,2 bilhões. Estão a serviço do ambicioso projeto eleitoral do governo petista.

O mentor da imprensa

A primeira vista, o presidente Lula é um poço de contradições em relação à imprensa. Ora ele diz que "é importante a gente ler todos os jornais que puder por dia". Ora diz que não lê jornais porque tem "problemas de azia". Mais de uma vez creditou à "imprensa livre e independente" a sua ascensão política. Mas também já declarou que se elegeu não porque "a imprensa me ajudou", mas porque "suei para enfrentar o preconceito e o ódio dos de cima para com os debaixo". Nesse ponto pelo menos é coerente: está seguro de que a sua reeleição no segundo turno de 2006, depois dos escândalos do mensalão e dos aloprados, representou uma fragorosa derrota da mídia e dos "formadores de opinião" que tentavam tutelar o eleitorado. Não só para ele, de fato, mas para 11 em cada 10 petistas, os meios de comunicação, aliados aos "de cima", tentaram derrubá-lo, fabricando a história da compra sistemática de deputados para que votassem com o governo. É a teoria da conspiração em sentido literal.

O Lula contraditório, a "metamorfose ambulante", como certa vez se autodefiniu, reaparece quando ele se manifesta sobre o cerco do governo Hugo Chávez ao que ainda resta de independente na imprensa venezuelana. Três anos atrás, fazendo campanha pela reeleição do caudilho, subiu num palanque no vizinho país para afirmar que o caudilho era "vítima da incompreensão e do preconceito" da mídia. Mas, anteontem, numa entrevista por escrito ao El Universal, de Caracas, Lula se recusou a comentar as perseguições chavistas aos órgãos de informação ? só este ano 32 emissoras de rádio foram tiradas do ar na Venezuela. Preferiu falar da situação no Brasil. "No meu país, a imprensa goza de total liberdade", ufanou-se, omitindo embora o caso do Estado, sob censura prévia há 3 meses por decisão judicial. E completou, com palavras irrespondíveis, se tomadas pelo valor de face: "Sou duramente criticado no Brasil por boa parte da imprensa, muitas vezes de maneira injusta, em minha opinião. Mas isso não muda em nada minha convicção de que a liberdade de imprensa é essencial."

Se assim é, Lula não deveria se dar ares de mentor da mídia, ainda que ela tenha toda a liberdade de rejeitar, criticar ou mesmo tratar com sarcasmo os seus preceitos. Na semana passada, por exemplo, ele disse à Folha de S.Paulo que a missão do jornalismo é apenas informar e não fiscalizar o poder, traindo, quem sabe, uma fantasia de ver a imprensa brasileira transformada em um grande Diário Oficial. Isso não é nada perto do que ele fez na quarta-feira em São Paulo, antes de seguir para Caracas. Em mais uma contribuição para a série "nunca antes?", pela primeira vez Lula atiçou uma plateia contra jornalistas. Falando para cerca de 3 mil catadores de lixo reunidos na feira Expocatadores 2009, abandonou em dado momento o discurso escrito e voltou-se para os "companheiros" repórteres. "Hoje vocês têm a oportunidade de fazer a matéria da vida de vocês." Bastaria "esquecer a pauta do editor" e se "embrenhar no meio dessa gente" para ouvi-la falar de sua vida. E ordenou, com uma acusação implícita: "Publiquem apenas o que eles falarem. Não tentem interpretar."

Ficasse nisso, a exibição de prepotência ainda seria um vexame venial, ao menos para os padrões da retórica lulista. Mas, na ânsia de mostrar que se identificava com a plateia e, como sempre, empolgado pelo som da própria voz, ensinou que, se os jornalistas seguissem a orientação do presidente-pauteiro, entenderiam "por que a figura do chamado formador de opinião pública, que antes decidia as coisas neste país, já hoje não decide mais". Na apoteose, ungiu a audiência com uma louvação desencapada. "Esse povo não quer mais intermediários" ? ou seja, a imprensa. "Esse povo tem pensamento próprio, esse povo anda pelas suas pernas, trabalha pelos seus braços, enxerga pelos seus olhos e fala pela sua boca." Deu no que teria de dar: os catadores em peso vaiaram os jornalistas. Se Lula quisesse e as circunstâncias permitissem, o "pensamento próprio desse povo" poderia provocar uma reação ainda mais agressiva.

É assim que funciona a política da manipulação autoritária: neutralizados, pelo descrédito, os intermediários entre o líder e os liderados ? as instituições do Estado e da sociedade e a imprensa independente ?, quem quer que ouse criticar o Chefe será facilmente execrado como inimigo do povo.

INTERNACIONALIZAÇÃO - Mais múltis brasileiras / Editorial

O Ministério do Desenvolvimento prometeu lançar, em dezembro, um programa para estimular a internacionalização da economia brasileira, segundo informou o secretário de Comércio Exterior, Welber Barral.

Seria a primeira iniciativa concreta do governo para buscar o equilíbrio entre os ingressos e as saídas de capital, reduzindo o fluxo líquido de dólares para o País, após a decisão do Ministério da Fazenda ? com efeitos pífios, até o momento ? de impor a cobrança do IOF de 2% sobre as entradas de dólares na Bolsa e na renda fixa.

Estimular a internacionalização significa ampliar o número das companhias multinacionais com sede no Brasil ? caso de empresas privadas como Vale, Embraer, Gerdau, Votorantim, Aracruz, Marcopolo ou Weg, entre outras, e a estatal Petrobrás. Proporcionalmente às dimensões da economia brasileira, esse número ainda é pequeno.

Com a desvalorização do dólar de cerca de 25%, até agora, neste ano, em relação ao real, investir no exterior tornou-se mais barato para as companhias que faturam em reais. Mesmo assim, a evolução desses investimentos é lenta e declinante, segundo os dados do Banco Central: de US$ 11,9 bilhões, nos primeiros nove meses de 2008, caiu para menos da metade, US$ 5,8 bilhões, no mesmo período de 2009. Na indústria, os investimentos diretos do Brasil no exterior foram de US$ 7,6 bilhões, em 2008, e, neste ano, até setembro, limitaram-se a US$ 1,6 bilhão.

Medidas tributárias, legislativas e administrativas estão sendo elaboradas pelos Ministérios do Desenvolvimento, da Fazenda, o Itamaraty e o Banco Central, para entrar em vigor no ano que vem, com vistas a estimular a política de internacionalização, explicou Barral.

Nas negociações comerciais bilaterais, o Itamaraty passaria a incluir mecanismos capazes de estimular os investimentos brasileiros no exterior. E o Ministério do Desenvolvimento proporá um novo regulamento sobre a atuação das trading companies, pois a legislação, da década de 70, está ultrapassada.

Mas o governo terá de definir uma política bem estruturada e de longo prazo para o setor externo ? o que, até agora, não tem demonstrado capacidade de fazer.

Barral argumentou, sexta-feira, que o câmbio ficou mais estável em todos os momentos em que se elevaram os investimentos das empresas brasileiras no exterior. De fato, em 2006, quando a Vale investiu US$ 13,2 bilhões na compra da mineradora Inco, do Canadá, a desvalorização do dólar em relação ao real foi de apenas 8,6%. Mas o presidente Lula quer que a Vale invista mais no Brasil e menos no exterior, sem levar em conta o impacto no mercado cambial.

O Brasil não inova ao estimular a internacionalização da economia, pois esta é a política de países como a China e a Índia. No passado, também foi a política de países industrializados, como o Japão, que, por exemplo, investiu pesadamente em montadoras nos Estados Unidos. Esses países se tornaram altamente superavitários ? e o aumento dos investimentos diretos no exterior foi a maneira encontrada para evitar uma desvalorização excessiva do dólar, que pusesse em risco a exportação.

O Brasil atrai volume crescente de investimentos diretos, que passaram de US$ 15,1 bilhões, em 2005, para US$ 18,8 bilhões, em 2006; US$ 34,6 bilhões, em 2007; e US$ 45,1 bilhões, em 2008, cedendo com a crise, neste ano. Os recursos contribuíram para manter em níveis baixos o déficit na conta corrente do balanço de pagamentos.

Desde 2007, o ingresso de dólares é muito maior do que a saída de cambiais. As reservas passaram de US$ 85,8 bilhões, em dezembro de 2006, para US$ 180,3 bilhões, em 2007, e chegaram a US$ 233,2 bilhões há uma semana.

Este ainda é um fenômeno relativamente novo na economia, habituada a déficits recorrentes do balanço de pagamentos. Agora, acreditam especialistas, a perspectiva é de o superávit cambial continuar por longo tempo ? o que recomenda a adoção de políticas de estabilização da taxa cambial.

Mas todo o governo precisará estar convencido de que a internacionalização da economia brasileira é o melhor caminho.


Reestatizar o Estado

estadao.com.br

É preciso reestatizar o Estado brasileiro, hoje submetido a interesses partidários, sindicais e privados, disse o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, hoje presidente do Conselho de Administração da Bolsa de Valores de São Paulo. Não se trata de jogo de palavras nem de frase de efeito. Numa entrevista ao jornal Valor de quinta-feira, Fraga expôs com clareza o perigo do uso da máquina estatal pelo grupo no poder e seus associados para nele permanecerem. De modo simples e direto, ele desmontou uma das grandes mistificações dos últimos tempos: a crise mostrou a importância da boa regulação e da supervisão eficiente, mas não de um setor público mais inchado e mais gastador. Não há nisso nenhuma novidade, observou sensatamente o entrevistado. Mas isso não é tudo. No caso do Brasil, a crise confirmou o acerto das políticas do governo anterior mantidas pelo atual. Ele não detalhou a resposta, mas o sentido é evidente: as políticas de metas de inflação, de câmbio flutuante e de superávit fiscal primário deram ao País condições para atravessar a crise internacional com prejuízos mínimos.

A mistificação distorce amplamente as condições do debate público. Na pregação do intervencionismo crescente, o presidente Lula e seus companheiros atacam os defensores do Estado mínimo. Mas quem são esses defensores? "Não sei", respondeu Armínio Fraga. "Nem o Roberto Campos, no auge do seu liberalismo, defendia isso. Aliás, ele próprio foi o pai do BNDES (...) Essa é uma tentativa de delimitar o debate a partir de uma premissa falsa." A mesma falsidade é evidente na tentativa de reduzir a polêmica em torno da intervenção a um embate entre nacionalistas e entreguistas, patriotas e inimigos da Pátria.

Com a mesma simplicidade, Fraga apontou a politização das decisões e da ação do governo federal no domínio econômico. Os fatos mais notórios têm sido amplamente discutidos: o modelo de exploração do pré-sal, com a presença dominante da Petrobrás, a "postura mais agressiva no mercado de crédito", as tentativas de comandar a política de investimentos da Vale e até de perseguir diretores da empresa. Os bancos públicos estaduais e federais, lembrou o economista, sempre acabaram com problemas gravíssimos quando foram manipulados por interesses políticos.

Mas os sinais preocupantes, observou Fraga, não são recentes. Existiram desde o início do governo Lula. Dois exemplos importantes e frequentemente esquecidos foram apontados na entrevista: "as tentativas de controlar a imprensa (com a proposta de criação do Conselho Federal de Jornalismo) e os meios eletrônicos (tentativa de criação da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual)." Em nenhum momento Armínio Fraga usou a palavra autoritarismo, mas o sentido de sua análise é inequívoco. O problema discutido na entrevista não se reduz à tradicional oposição mais Estado/mais mercado. Os aspectos mais importantes da questão são políticos e imensamente relevantes para o futuro da democracia brasileira.

Fraga tocou no assunto mais abertamente ao mencionar um artigo de um professor de Chicago, Luigi Zingales, a respeito do debate recente sobre a ampliação do papel do Estado. No fundo, disse o entrevistado, a mensagem do artigo é a seguinte: "Existe uma defesa do Estado porque, tipicamente, os interessados conseguem identificar onde vai estar a sua boquinha." A maior parte da população sente aos poucos o custo da mudança, mas não consegue mobilizar-se para reagir. "Essa é a marca de um Estado que a literatura chamava de corporativo, patrimonialista, populista e que, infelizmente, acaba desembocando num Estado hiperdimensionado, pouco eficiente, injusto e corrupto."

A descrição é expressiva, mas a mensagem completa é mais ampla: a hipertrofia do Estado posto a serviço do governo acaba resultando, paradoxalmente, na sujeição do público ao privado, na subordinação do interesse geral ao interesse particular. Daí a proposta de Armínio Fraga de reestatização do Estado. Daí, também, sua defesa da incorporação da enorme renda esperada do pré-sal, dentro de alguns anos, ao Orçamento-Geral da União, "o espaço mais natural e mais democrático" para se decidir como usar o dinheiro do povo. Restaria discutir um detalhe: a qualidade do processo orçamentário brasileiro.

Chineses ganham mercado com preço cada vez menor

Valor Econômico

Diferentes mercadorias "made in China" estão mais baratas porque os preços caíram também em dólar

A crise provocou uma verdadeira liquidação de produtos chineses vendidos no Brasil. Diferentes mercadorias "made in China" estão mais baratas não apenas porque incorporaram a valorização do câmbio, mas porque os preços caíram também em dólar. Entre janeiro e setembro, a moeda americana passou de R$ 2,31 para R$ 1,82, uma queda de 21%. No mesmo período, o preço de muitos produtos convertidos em reais recuou muito mais, segundo estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) feito a pedido do Valor. Há casos em que, desde o começo do ano, os preços dos produtos caíram mais de 50%, como alguns tipos de bolsas de matérias têxteis (-63,3%), de calçados com sola de borracha (-51,7%) e certos brinquedos (-54,7%).

"Numa feira em Xangai na semana passada, um metro de tecido denim era negociado a US$ 1,60. Aqui, de jeito nenhum podemos vender o metro por menos de US$ 2", diz Domingos Mosca, coordenador da área internacional da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). A situação é mais dramática na comercialização de vestuário. A fabricação nacional custa US$ 34,70 por quilo. As importações chinesas chegam ao Brasil com preços 60,3% mais baratos.

Como reação à combinação da valorização do real com a política agressiva de preços dos chineses, a indústria e o varejo ampliaram a compra de insumos ou bens finais provenientes daquele país. Além dessa estratégia de defesa, há também uma reação mais perigosa para o futuro da produção brasileira: algumas empresas consideram a instalação de fábricas na China, com a consequente redução da atividade local. A catarinense Riffel, produtora de peças para motocicletas e roupas para motociclistas, sediada em Blumenau, já está na China e decidiu ampliar a gama de produtos que fabrica naquele país. Nas contas da empresa, a produção na Ásia sai, pelo menos, 20% mais barata do que no Brasil e uma das razões é o preço do aço.

Liberdade cambial?

Antonio Delfim Netto

Valor Econômico


Erra-se muito na discussão do problema da taxa de câmbio no Brasil. Quando se afirma que “a taxa de câmbio ou é fixa ou é flutuante” e ainda se ensina que na segunda hipótese ela é determinada livremente no mercado pela oferta e procura de dólares, comete-se um equívoco que pode ter graves consequências para o desenvolvimento econômico do país.

A primeira proposição é obviamente falsa, como mostram as estatísticas do Fundo Monetário Internacional. Entre o sistema de câmbio fixo e o de taxas flutuantes existem tantos regimes quanto os números reais no conjunto fechado (0,1)!

É fato que um processo de seleção e o desenvolvimento das políticas econômicas têm levado a uma concentração nos sistemas de câmbio “flutuante”, mas estes envolvem dezenas de tipos de “intervenção”. No começo do segundo semestre de 2009, por exemplo, todos os Bancos Centrais do mundo (onde o câmbio flutua!) realizaram intervenções abertas ou em sigilo nos “mercados” para prevenir valorizações cambiais indesejadas naquele momento.

Os dois sistemas, ou “modelos”, são espécimes de entes platônicos que não encontram correspondência na realidade. Não existe nem o câmbio “rigorosamente fixo” nem o “absolutamente flutuante” (a não ser em instantes fugazes dos livrostexto) devido aos seus inconvenientes em momentos de crise.

A segunda afirmação, que no câmbio flutuante a taxa é determinada livremente no mercado pela oferta e procura, revela apenas ignorância, no sentido honesto da palavra que significa “precariedade de conhecimento”. Ela omite a questão fundamental que é saber: “Quem constrói o mercado?” Ou melhor, quem constrói a “oferta” e a “procura” de dólares?

É preciso distinguir dois mercados. Um de bens e serviços (exportação e importação) em que as transações têm maiores consequências sobre o nível de emprego da economia. Nele se geram as divisas para pagar as importações de bens de consumo, de capital, de tecnologia e dos bens intermediários que abrem as perspectivas de novos investimentos e retroalimentam o desenvolvimento.

Quando há limites para o movimento de capital financeiro, mas liberdade para investimento direto, este mercado “comercial” estabelece uma taxa de câmbio capaz de manter em relativo equilíbrio o saldo em conta corrente e, portanto, o endividamento externo.

Quando há maior liberdade de movimento de capitais criase um mercado “financeiro”, muito mais ágil e musculoso na especulação e na arbitragem que envolve toda a sorte de “inovações”. Neste mercado global, que incorpora o comercial e o financeiro, a taxa de câmbio (ou melhor, o dólar) transformase num ativo financeiro cujo preço se ajusta instantaneamente, independentemente das condições do mercado “comercial”. É por isso que pode haver uma divergência entre taxa de câmbio “comercial” que acelera o crescimento econômico e sustenta o emprego e a taxa de câmbio “global”. Esta obedece às conveniências da especulação e da arbitragem financeira, dependendo do lucro que oferece aos agentes.

Quem comanda esse movimento financeiro e constrói, portanto, a oferta global? São as expectativas que se formam sobre a evolução da economia e da própria taxa de câmbio, além das diferenças entre as taxas de juros reais internas e externas.

O fluxo de capitais que valoriza ou desvaloriza a taxa de câmbio depende, como é evidente, das diferenças de retorno que um dólar pode obter no mercado financeiro externo e a diferença o que ele obtém seguramente no generoso mercado financeiro brasileiro.

É usual no Brasil proporcionar ao investidor estrangeiro retornos de até 5% ao mês em dólares. Há quanto tempo isso funciona nas aplicações em nossa eficiente BMF/Bovespa, contra os 2% anuais nos Estados Unidos? É um movimento que se autoalimenta valorizando o câmbio, com forte desestímulo aos investimentos no setor exportador da indústria brasileira.

As exportações brasileiras cresceram 3,2% ao ano entre 1995 e 1998 e em média 8% entre 1999/2002, quando acumulamos dívida, um pesado déficit em conta corrente de US$ 80 bilhões. A partir de 2003 as exportações reagiram, no embalo da espetacular expansão do comércio mundial e até 2008 a média anual de crescimento foi de 22%, muito em função dos bons preços da agropecuária e dos produtos minerais. A condição dos preços das commodities agrícolas já não é a mesma, enquanto as exportações industriais seguem vitimadas pela persistência da sobrevalorização cambial.